Governança que protege (e valoriza) a fintech

Nos dias atuais, tanto no Brasil como em qualquer outro país, uma fintech pode ter o melhor produto do mercado, uma base de clientes crescente e até rodadas de investimento expressivas — e ainda assim estar a um passo do colapso.

O que diferencia as operações que sobrevivem das que desaparecem não é apenas tecnologia ou velocidade. É governança.

Depois de décadas acompanhando instituições financeiras de todos os portes, observei um padrão recorrente: as fintechs que colapsam silenciosa ou estridentemente são exatamente aquelas que tratam governança como algo secundário, algo que “vem depois”.

No livro The Sharp Fintech, dedico um capítulo a esse tema. Porque, na prática, governança não é burocracia. É o que mantém a operação de pé quando tudo mais começa a ceder.

1. O que realmente significa governança em uma fintech

Muita gente ainda associa governança a “conselho de administração” ou “reuniões longas”.

A definição oferecida pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC) é a seguinte:

Governança corporativa é um sistema formado por princípios, regras, estruturas e processos pelo qual as organizações são dirigidas e monitoradas, com vistas à geração de valor sustentável para a organização, para seus sócios e para a sociedade em geral. Esse sistema baliza a atuação dos agentes de governança e demais indivíduos de uma organização na busca pelo equilíbrio entre os interesses de todas as partes, contribuindo positivamente para a sociedade e para o meio ambiente.

Penso que isso passa pela capacidade de tomar decisões certas, com as pessoas certas, no momento certo — e de forma documentada.
Em fintechs, isso inclui:

  • Estrutura de conselhos, diretorias executivas e comitês que realmente funcionem
  • Segunda linha (compliance, risco, auditoria interna) com independência real
  • Processos claros de aprovação de produtos, parcerias e mudanças operacionais
  • Registro e acompanhamento regular do negócio e de decisões estratégicas e seus riscos
  • Transparência entre fundadores, executivos, conselheiros e colaboradores em geral

Sem isso, a fintech pode acabar operando no modo “bombeiro”: reage a crises em vez de evitá-las.

2. Por que conselhos / diretorias colegiadas fracas destroem valor

Já vi fintechs promissoras perderem valor em semanas por falta de governança básica.

O problema não é a ausência de conselheiros ou diretores. É a ausência de fazer as perguntas difíceis.

Quando o conselho ou diretoria colegiada não segue padrões técnicos e profissionais de supervisão, surgem padrões perigosos:

  • Decisões estratégicas são tomadas sem análise de risco
  • A segunda linha é pressionada a “aprovar” em vez de questionar
  • Relatórios regulatórios são vistos como formalidade
  • Mudanças de modelo de negócio acontecem sem atualização de políticas e seus processos e controles inerentes

O resultado é inevitável: quando o Bacen ou o mercado começa a fazer perguntas, a instituição não tem respostas — e perde credibilidade.

No meu livro The Sharp Fintech, mostro casos reais em que governança fraca transformou problemas operacionais em crises existenciais.

3. A segunda linha como ativo, não como custo

Uma das maiores – e mais preocupantes – resistências que encontro em executivos gestores é a visão de que áreas como compliance e risco são “as que gastam dinheiro”, onde há grande resistência em investir adequadamente.

A verdade é o oposto.

Quando a segunda linha tem autonomia e estrutura adequada, ela:

  • Permite um crescimento saudável do negócio
  • Evita multas e sanções
  • Reduz retrabalho operacional
  • Aumenta a confiança de parceiros e investidores
  • Protege a reputação da empresa

No treinamento em fintechs da TSFC (https://www.thesharpfintech.com/tsfc-treinamento/), costumo dizer que a segunda linha é o “sistema imunológico” da fintech.

Fintechs que enfraquecem esse sistema por pressão de crescimento estão, na verdade, acelerando o risco.

4. Governança como diferencial de valuation

Nos dias atuais, tanto no Brasil como em outros países, investidores sérios não olham apenas métricas de crescimento.

Eles querem saber:

  • O conselho / diretoria colegiada se reúne com frequência e recebe informações completas?
  • A segunda linha tem poder real de veto?
  • As decisões críticas estão documentadas?
  • Existe separação clara entre estratégia e controle?

Fintechs com governança madura negociam valuation mais alto porque transmitem previsibilidade.

E previsibilidade, em um mercado regulado, vale ouro.

5. Como construir governança sem travar a operação

A boa notícia é que governança não precisa ser pesada.

O que importa é ser proporcional ao tamanho e ao risco da operação, como preconizado pelo próprio Bacen. Fintechs menores podem começar com estruturas mais leves, desde que tenham:

  • Políticas claras e atualizadas
  • Reuniões regulares de de seus órgãos de gestão e comitês técnicos
  • Registro de decisões
  • Segunda linha com acesso direto aos tomadores de decisão

O erro comum é tentar copiar o modelo de um banco grande. O segredo é adaptar a estrutura ao estágio da empresa — e evoluir junto com ela.

Conclusão: governança é proteção e valorização ao mesmo tempo

Nos dias atuais, governança deixou de ser “coisa de empresa grande” para se tornar requisito de sobrevivência.

Fintechs que investem em conselhos e diretorias funcionais, segunda linha independente e processos decisórios claros protegem a operação de crises evitáveis — e, ao mesmo tempo, aumentam seu valor de mercado.

É exatamente esse equilíbrio que ensino no livro The Sharp Fintech e no treinamento em fintehcs da TSFC.

Para aprofundar:

Se você quer aprofundar esses temas com profundidade prática e aplicável:

Ambos foram criados para quem quer construir uma fintech que cresce com segurança e é valorizada pelo mercado.

Luciano Fantin

Mestre em Administração de Empresas (Mackenzie), MBA em Finanças (USP), Certificado em CPA-20 (ANBIMA), ERM (COSO), Fintechs (NYU Stern). 30 anos de mercado financeiro local e no exterior sendo 11 anos como membro estatutário de boards como CEO, CFO/COO. Foco em finanças, riscos corporativos e estratégia. Consultor na área de serviços financeiros com sólidas credenciais em fintechs e na indústria de pagamentos eletrônicos.

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