Como a regulação (CMN e BCB) pode ser usada como combustível de crescimento

Durante muito tempo, a narrativa dominante no ecossistema de fintechs era simples: regulação burocratiza, encarece e limita a inovação.
Essa visão, não limitada ao Brasil, tem sido historicamente utilizada para se ganhar mercado agressivamente, sem o devido cuidado com os riscos, em especial aqueles suportados pelos clientes.

Basta retroagirmos um pouco no tempo, e poderemos ver que os sistemas financeiros mundiais invariavelmente acabam sendo vítimas desse discurso raso, e muitas vezes enviesado mesmo. Somente nos últimos 20 anos contabilizamos mais que uma dúzia delas pelo mundo afora.

Regulação bem feita não trava. Ela acelera.

No livro The Sharp Fintech, dedico boa parte do conteúdo a mostrar, com casos reais, como instituições que abraçaram a regulação conseguiram escalar mais rápido, fechar contratos maiores e atrair investidores mais qualificados.

Este artigo explica o mecanismo por trás dessa transformação.

O mercado, no longo prazo, premia maturidade, não apenas velocidade

O cliente corporativo, o parceiro, as bandeiras e o investidor institucional estão cada vez mais atentos a seu critério de escolha.

Eles não buscam apenas “a fintech mais disruptiva”, mas buscam a fintech confiável. Isso acontece porque o mercado já viu o custo de operar com instituições frágeis:

  • Crises de sobrevivência por falhas operacionais
  • Parcerias rompidas por falhas de PLD/FTP
  • Risco de imagem por associação
  • Projetos parados por falta de governança
  • Rodadas de investimento que não avançam por ausência de estrutura regulatória
  • Perda de clientes corporativos que exigem due diligence rigorosa

Nesse cenário, a autorização do Bacen (ou a certificação como Prestador de Serviços de Ativos Virtuais – PSAV, por exemplo) deixou de ser apenas um selo burocrático. Tornou-se prova de maturidade.

A regulação funciona como um filtro natural de qualidade.

Ser regulado é um bom argumento de vendas

Um dos cases que apresento no livro envolve um gestor que, após obter a autorização, percebeu um aumento significativo na conversão de clientes B2B. O motivo era simples: empresas maiores passaram a preferir parceiros que já haviam passado pelo crivo do Banco Central.

Ser regulado não significa apenas arcar com o “custo de entrada” e representa diferencial competitivo.

Grandes corporações, bancos e até fundos de investimento incluem, em seus critérios de seleção de parceiros, itens como:

  • Estrutura sólida de compliance
  • Gestão de risco e capital efetivos
  • Governança ativa e independente
  • Histórico regulatório saudável

Fintechs que possuem esses elementos fecham (e mantém) negócios que as concorrentes com ambientes frágeis acabam desperdiçando.
Atendemos, recentemente, uma credenciadora em modo de crise, que havia perdido um importante contrato junto a uma de suas bandeiras, por fragilidades em sesu controles internos, em especial dos de PLD/FTP.

No treinamento em fintechs da The Sharp Fintech, mostramos como transformar a estrutura regulatória em argumento comercial durante reuniões e propostas.

A regulação deixa de ser um tema de “compliance” e passa a ser tema estratégico-comercial.

Conformidade regulatória melhora a própria operação

Além dos benefícios externos, a regulação traz ganhos internos. As fintechs que implementam processos sérios de PLD/FTP, gestão integrada de riscos, continuidade de negócios e governança costumam:

  • Reduzir incidentes operacionais
  • Diminuir retrabalho
  • Melhorar a qualidade das decisões
  • Aumentar a previsibilidade financeira

Ou seja, a regulação não apenas abre portas externas. Ela também organiza a casa por dentro.

Esse é um dos pontos que mais surpreende fundadores quando começam a aplicar os conceitos do livro na prática.

Conclusão: regulação deixou de ser freio para virar acelerador

Acredito firmemente, até pelos vários exemplos na TSFC, que a diferença entre fintechs que crescem de forma sustentável e as que enfrentam crises constantes está, em grande parte, na forma como tratam a regulação.

As que ainda a veem como custo ou burocracia perdem espaço (e algumas até desaparecem) e as que a tratam como ferramenta estratégica ganham velocidade, previsibilidade e valor de mercado.

Essa é uma das principais mensagens que desenvolvo tanto no livro The Sharp Fintech quanto no treinamento TSFC.

Para aprofundar

Se você quer aprofundar esses temas com profundidade prática e aplicável:

Ambos foram criados para ajudar líderes de fintechs a transformar regulação em vantagem competitiva real.

Luciano Fantin

Mestre em Administração de Empresas (Mackenzie), MBA em Finanças (USP), Certificado em CPA-20 (ANBIMA), ERM (COSO), Fintechs (NYU Stern). 30 anos de mercado financeiro local e no exterior sendo 11 anos como membro estatutário de boards como CEO, CFO/COO. Foco em finanças, riscos corporativos e estratégia. Consultor na área de serviços financeiros com sólidas credenciais em fintechs e na indústria de pagamentos eletrônicos.

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